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Pontos e Milhas

É possível fazer uma escala internacional gratuita usando pontos de cartão?

Descubra como as regras de stopover e open jaw funcionam nos programas brasileiros e se vale a pena tentar pagar uma passagem para visitar dois destinos.

Fernanda Souza
Fernanda SouzaConsultora de Estratégia de Pontos e Milhas
Imagem editorial ilustrando É possível fazer uma escala internacional gratuita usando pontos de cartão?

A ideia de emitir uma passagem para Paris e, "de brinde", conseguir passar uma semana em Lisboa, pagando apenas as taxas de embarque, é o sonho de consumo de quem acumula pontos. Quem nunca ouviu a lenda de que é possível dar a volta ao mundo pagando o preço de uma única ida e volta? Na teoria das companhias aéreas, isso chama-se stopover. Na prática do viajante brasileiro que usa pontos, é uma das fontes mais comuns de frustração.

A resposta curta e dura para 2026 é: depende de qual programa você está falando, mas na maioria das vezes, não é "gratuito" como se imagina. Para tirar essa dúvida, precisamos esquecer o marketing das operadoras de cartão e olhar friamente para o regulamento de tarifas (fare rules) das alianças aéreas e dos programas de fidelidade nacionais. O que parece vantagem pode virar um prejuízo de milhares de reais em impostos se você não souber exatamente onde clicar.

Stopover não é conexão: a regra das 24 horas

O primeiro erro que vejo nas consultorias é confundir escala técnica com parada programada. Para a grande maioria das companhias aéreas e dos programas de fidelidade, uma conexão (layover) é qualquer parada inferior a 24 horas em um voo internacional. Se você pousa em Madri para pegar outro voo para Londres 6 horas depois, isso é conexão e o sistema cobra uma única taxa de embarque e uma única tabela de milhas.

O problema começa quando você quer essa parada para durar 3 dias, uma semana ou um mês. Aí, o sistema de reservas entende que você está fazendo um stopover. Antigamente, em programas como o Smiles da antiga TAM, isso era relativamente simples. Hoje, as regras foram engessadas para evitar que o viajante "unifique" duas viagens em um único bilhete.

A maioria dos programas brasileiros, como o Latam Pass e o TudoAzul, baseia-se em tabelas de distância ou zonas fixas. Se você insere um destino com duração superior a 24 horas, o sistema pode interpretar isso como dois destinos distintos. O resultado? O valor das milhas dobra, ou o sistema simplesmente bloqueia a emissão online, forçando você a ligar para o call center e pagar uma taxa de atendimento de R$ 150 a R$ 300 só para tentar encaixar a parada, o que muitas vezes nem é possível.

Como o TAP Miles&Go lida com essa parada

Quando pensamos em Brasil para Europa, o programa que mais gera dúvidas sobre stopover é o TAP Miles&Go. A TAP Portugal tem uma política comercial famosa que permite estadias gratuitas em Lisboa ou no Porto. Porém, o que a propaganda da companhia aérea não deixa claro é que isso vale para bilhetes pagos em dinheiro.

No mundo de pontos, a música muda. O TAP Miles&Go segue a regra padrão da Star Alliance para bilhetes emitidos inteiramente em milhas: se a parada passa de 24 horas, o sistema tenta cobrar duas pernas. Onde entra a "graça"? Em 2026, o programa ainda permite algumas rotas específicas, sobretudo voos de longa duração vindos do Brasil, onde você pode conectar na Europa sem custo extra de milhas, contanto que a parada não exceda o limite técnico de conexão antes de seguir para o destino final dentro da Europa.

Ou seja, você consegue voar São Paulo -> Lisboa -> Milão pagando as milhas de São Paulo para Milão. A parada em Lisboa é "grátis" em milhas. Mas aqui mora o perigo. Se você tentar transformar isso em uma visita turística, saindo do aeroporto, pernoitando e voltando 5 dias depois, o robô do site vai detectar o stopover e pode cobrar a soma das distâncias. Além disso, o TAP é mestre em cobrar taxas de combustível (YQ) altíssimas. Nesse cenário, sua passagem "grátis" pode sair por R$ 2.500 apenas em taxas, o que inviabiliza a economia.

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O segredo que vale mais pontos: o voo com origem e destino diferentes

Se o seu objetivo é visitar duas cidades pagando uma passagem, a estratégia de stopover puro (ida com parada longa + volta) é frágil no Brasil atual. O que eu realmente recomendo e aplico na minha própria estratégia de viagens é o chamado "Open Jaw".

Em vez de insistir em uma parada técnica que vira turismo, você estrutura o bilhete assim: voa do Brasil para a Cidade A, viaja por terra até a Cidade B, e retorna de B para o Brasil. Para os programas de fidelidade, isso não é um stopover, é sim um "voo de retorno diferente". A maioria dos programas (Latam Pass, TudoAzul, Smiles) permite isso sem cobrar a mais em milhas, desde que a zona geográfica seja a mesma.

Vamos pegar um exemplo concreto que costumo testar: uma ida para Buenos Aires e volta de Montevidéu. No Smiles, isso custa a mesma quantidade de milhas que uma ida e volta para Buenos Aires. Você não paga milhas extras por sair de outro aeroporto na mesma região. O mesmo vale para Europa: entrar em Roma e sair de Paris costuma custar as mesmas milhas que uma tradicional Roma-Roma, dependendo da tabela do programa naquele mês.

A vantagem aqui é que você elimina o risco de taxa de serviço por erro de sistema e não fica refém de uma única companhia aérea para o trecho interno. Você paga as milhas de um bilhete, mas ganha a liberdade de um itinerário multi-destino.

O cálculo real: quando o desconto é prejuízo

Antes de se empolgar com qualquer possibilidade de parada gratuita, você precisa fazer a conta do Custo por Milheiro (CPM) com taxas incluídas. Muitas vezes, ao tentar forçar uma parada em hubs como Londres (com British Airways) ou Frankfurt (com Lufthansa), o sistema de pontos transfere os impostos do governo local para o seu bilhete de resgate.

Já vi cenários onde um passageiro gastou 60.000 pontos + R$ 3.000 de impostos para fazer uma escala em Londres, achando que estava "ganhando" a cidade. Se ele tivesse emitido dois bilhetes separados ou usado uma estratégia de Open Jaw saindo de outro país com impostos menores (como Itália ou Espanha), teria economizado mais de R$ 1.000 em dinheiro real, mantendo o mesmo gasto de pontos.

Além disso, se você estiver pensando em usar pontos de cartão que vencem em breve, forçar uma emissão complexa com stopover pode ser perigoso. Programas como o TudoAzul têm regras bem rígidas de alteração. Se você emitir um bilhete com stopover e depois precisar mudar a data da parada, a multa pode ser superior ao custo de emitir um bilhete à parte. Se você está nessa situação de prazo apertado, vale mais a pena entender quando vale mais a pena vender pontos no Facebook ou usar Cashback automático?.

Não subestime as taxas de transferência bancária ou conversão cambial no dia do pagamento desses impostos. Em 2026, com a flutuação do dólar, o que era uma taxa de R$ 400 na cotação do dia da compra pode virar R$ 600 na fatura do cartão se a emissão for processada em moeda estrangeira e você não tiver um cartão com dólar embutido.

Conclusão

Parar de sonhar com a "escala técnica" gratuita que não existe mais na maioria das alianças é o primeiro passo para economizar de verdade. O stopover clássico morreu para o usuário comum de pontos brasileiros, vítima do aumento de taxas aeroportuárias e do rígido controle de segmentos dos programas nacionais. Tentar forçar a barra em um sistema automatizado geralmente resulta em erro de emissão ou um custo de taxas que anula a economia das milhas.

A sua próxima viagem internacional deve ser planejada olhando o mapa de trás para frente: de onde você quer voltar? Estruture seu roteiro para usar o recurso de Open Jaw (destino de retorno diferente). Isso entrega exatamente o que você quer — visitar dois lugares pelo preço de um — sem as amarras burocráticas e os impostos exorbitantes de um stopover forçado. Pare de tentar enganar o sistema e comece a usar as regras de rotas a seu favor, verificando sempre se a soma dos impostos não está tornando seu bilhete "grátis" mais caro que uma passagem comprada à vista em promoção.

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