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Pontos e Milhas

Como salvei 30 mil pontos que venciam amanhã gastando R$ 0,50 real

Perdi o prazo de validade de 30 mil pontos Smiles e recuperei tudo com uma micro-transação no mall; veja o passo a passo desse 'pulo do gato'.

Fernanda Souza
Fernanda SouzaConsultora de Estratégia de Pontos e Milhas
Imagem editorial ilustrando Como salvei 30 mil pontos que venciam amanhã gastando R$ 0,50 real

Era terça-feira passada, perto das 23h, quando o alerta do Gmail me salvou de um prejuízo de mais de mil reais. Não era uma conta de luz, nem o boleto do cartão de crédito. Era um aviso frio e calculista do programa de fidelidade: "Seus 30.000 pontos expiram em 24 horas".

Senti um frio na barriga. Eu sou consultora de pontos, vivo disso, e mesmo assim caí no clássico erro do acumulador compulsivo. Juntei saldo com aquele cartão que oferece 3 pontos por dólar, deixei lá "descansando" para uma viagem futura e esqueci a regra de ouro: pontos não são CDB, eles não rendem sozinhos; eles corroem se você não mexer.

Em vez de entrar em pânico e tentar emitir uma passagem aleatória só para não perder — o que seria um desperdício —, lembrei de um truque de manutenção de conta que uso em emergências. Minha missão era simples: gerar uma atividade na conta para zerar o contador de validade. A solução? Gastar R$ 0,50 real no shopping do aplicativo.

Vou te contar exatamente como fiz isso, o cálculo de custo-benefício dessa operação e por que transferir pontos nem sempre é o plano de fuga mais inteligente.

O susto de ver 30 mil pontos evaporando

Para entender a gravidade, precisamos traduzir "pontos" para "dinheiro". Estamos falando de 30.000 pontos Smiles, que, na cotação atual de 2026, rendem tranquilamente um trecho nacional em economia ou servem como desconto pesado em trechos internacionais. Se eu for pensar em Custo por Milheiro (CPM) real, quebrar o galho comprando passagem à vista custaria caro. Perder isso é jogar dinheiro fora.

O erro foi assumir que a conta estava "viva". A maioria dos programas (Smiles, LATAM Pass, TudoAzul) tem uma regra de validade baseada em janela de tempo (geralmente 24 meses) ou inatividade. Se você não ganha nem gasta nada naquele período, o saldo evapora. Eu tinha ganho esses pontos em março de 2024 com aquele bônus de adesão do cartão e deixei quieto. O relógio parou de tocar e eu nem vi.

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O pensamento inicial de muita gente, inclusive a minha por um segundo, seria: "Vou transferir para o meu irmão ou para outra conta". Pura ilusão. A maioria dos programas cobra taxas salgadas para transferência entre contas, sem falar que muitos encerraram essa facilidade para evitar fraudes. Pagar uma taxa de transferência para salvar pontos que valem R$ 900 a R$ 1.200 é matar a formiga com bazuca. O que é taxa de transferência e como ela pode derrubar o valor da sua passagem é algo que sempre reforço nas consultorias: a taxa muitas vezes consome o valor do resgate.

Por que comprar algo no Shopping conta como "atividade"

Aqui é onde entra o "pulo do gato". A validade dos pontos é vinculada a movimentação na conta. Qualquer emissão de bilhete, upgrade de cabine ou... aquisição de pontos ou produtos na loja do programa.

Eu não precisava gastar meus pontos. Eu precisava apenas provar ao sistema que eu estava ali, respirando e usando a plataforma.

Entre no app do programa (no caso, Smiles, mas funciona na LATAM Store e no TudoAzul Market) e fui para a aba de "Shop". A minha estratégia foi caçar o item mais barato possível que gerasse um registro de transação. Não estava atrás de um desconto real, queria apenas a pegada digital da compra.

Varrendo as ofertas, encontrei uma opção de "doação" para instituição de caridade que aceitava contribuições a partir de R$ 1,00. Mas queria gastar menos. Fui para a seção de entretenimento e encontrei um e-book ou conteúdo digital promocional que estava custando R$ 0,50 naquele dia (muitas vezes esses preços aparecem em apps de streaming parceiros ou ofertas relâmpago). Fechei a compra usando pontos? Não. Usei o cartão de crédito cadastrado.

Agora você deve estar pensando: "Fernanda, você gastou dinheiro para não gastar pontos?". Sim. Gastar R$ 0,50 para resetar a validade de 30.000 pontos é um ROI absurdo.

Ao processar o pagamento de R$ 0,50, o sistema registrou:

  1. Uma data de movimentação nova (o dia de ontem).
  2. Atividade recente na conta.

Regra da maioria dos programas: se há movimentação, a validade dos pontos existentes (e dos que você ganha depois) é estendida por mais um ciclo. No Smiles, por exemplo, qualquer nova atividade estende a validade de todo o saldo por 12 meses contados daquela data. Pronto, dei fôlego aos meus 30 mil pontos até março de 2027 por menos que o preço de um chiclete.

A alternativa da doação de pontos (o método de R$ 0,00)

Se você estiver realmente sem querer soltar nem 50 centavos, existe uma rota alternativa que depende do programa estar com campanhas ativas. A doação de pontos.

Muita gente não sabe, mas certas instituições parceiras aceitam doações de pontos diretamente no site da companhia aérea. No Smiles, por exemplo, a campanha "Smiles para o Bem" permite doar pontos para o Hospital A.C.Camargo Cancer Center ou para a UNICEF. Se eu tivesse doado, por exemplo, 500 pontos para o UNICEF, essa saída de pontos na minha conta contaria como movimentação.

O "pulo" aqui é gerar uma atividade. Doar 500 pontos (que valem talvez R$ 15 em emissão mal otimizada) para salvar os outros 29.500 que restam é matematicamente correto. A desvantagem? Às vezes o sistema de doação pode dar bug e não atualizar a validade imediatamente. Uma compra financeira, mesmo de centavos, é inegável perante o sistema.

Cuidado apenas para não cair na armadilha de doar tudo achando que vai resgatar depois. Doação é saída definitiva. O meu objetivo com os R$ 0,50 foi manter o saldo integral para usar numa escala internacional gratuita usando pontos de cartão no próximo final de ano.

O erro de "usar para não perder" que devora CPM

Antes de achar essa solução de 50 centavos, considerei por 10 segundos emitir uma passagem só de ida para qualquer lugar, só para "bloquear" o uso e cancelar depois. Mau plano.

Primeiro, emitir passagem apenas para cancelar gera taxas de no-show ou custo de cancelamento que variam de R$ 150 a R$ 300 dependendo da tarifa. Segundo, e mais importante, o uso ineficiente de pontos queima seu Custo por Milheiro.

Emitir uma passagem de curto prazo em alta temporada usando pontos tem um custo oculto altíssimo. Se você usa 30 mil pontos em uma rota que custaria R$ 400 à vista, você está pagando 13,3 reais por milheiro. É um desastre financeiro. Eu prefiro perder 50 centavos mantendo a oportunidade de usar esses mesmos pontos em uma passagem para a Europa ou Chile, onde o CPM pode subir para 30 ou 40 reais por milheiro. Esse é tipo de erro clássico que gera um prejuízo triplica o custo na prática.

Quando vale a pena vender os pontos a desconto

Existe uma linha tênue entre a emergência e a aceitação da perda. Se você tem pontos que vencem e nenhuma intenção real de viajar nos próximos 24 meses, salvar pode ser apenas adiar o inevitável.

Nesses casos, vejo muito gente recorrer ao mercado cinza (venda em grupos de Facebook) ou ao Cashback automático. Vender pontos ilegalmente é arriscado, mas alguns programas de cartões permitem "resgatar" pontos por crédito na fatura (cashback). O valor geralmente é pífio (0,25% a 0,5% de volta), mas é melhor que o saldo ir para o lixo.

No meu caso, salvar valia a pena porque eu tenho planos concretos para novembro. Mas se sua vida financeira não comporta viagens de lazer agora, é melhor transformar esses 30 mil pontos em R$ 150 de desconto na fatura do que deixar sumir. É dinheiro no bolso.

A ferramenta que evita o susto

Depois que o coração voltou a bater normal, fiz o que deveria ter feito em 2024: configurei lembretes recorrentes.

Não confie na memória e muito menos nos avisos por email do programa (que costumam chegar uma semana antes ou, pior, depois que venceu). Coloque no Google Calendar um evento para 3 meses antes da data de validade de cada lote de pontos importante.

Por que 3 meses? Porque é tempo suficiente para você planejar uma emissão inteligente ou encontrar esses "gatonhos" de manutenção de conta. Tentar resolver isso 24 horas antes é estresse desnecessário.

Economizei R$ 0,50, mas a lição sobre validade vale muito mais. Pontos são uma moeda volátil. Eles se desvalorizam com mudanças de tabelas, eles perdem a validade e eles ficam presos em programas. A única forma de garantir rentabilidade em Pontos e Milhas não é acumular cada vez mais, é ter um plano de saída claro e a disciplina de manter a conta ativa, mesmo que seja com a compra do e-book mais barato da loja.

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